Evento internacional de CTS importa para entender mundo contemporâneo

Diversas instituições de ensino e pesquisa reúnem-se para discutir Ciência, Tecnologia e Sociedade sob uma perspectiva inter, multi e trans-disciplinar

Desde que começou, em primeiro de março, o I Colóquio Internacional em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), já promoveu quatro palestras. Até o dia 5 de julho são previstas ainda outras seis apresentações distribuídas ao longo desse período. CTS “é um campo antigo, já com mais de 30-40 anos de existência e que sem dúvida lida com desafios e problemas que tocam intimamente nossa contemporaneidade”, explica Tiago Brandão, cidadão português ph.D. em História, professor da Universidade Nova de Lisboa e participante da organização do evento.

“Dada a transversalidade dos temas em foco, eu diria que todo o ensino superior universitário se beneficia em ouvir o tipo de discussões que vêm tendo lugar – e as que irão ainda ocorrer até julho!” – anuncia o professor. Segundo os dados fornecidos por Tiago, a audiência tem sido “surpreendente”, de 150 a 250 pessoas assistindo as lives, e contando já com quase três mil visualizações no canal de YouTube, uma média de 35 a 40 minutos por pessoa.

Sobre a interdisciplinaridade que está no âmago do Colóquio, Brandão explica que historicamente “decorreu da dificuldade das ciências duras dialogarem com as ciências sociais. A integração das ciências sociais e as humanidades com a investigação de base científica, o desenvolvimento tecnológico e as engenharias, é sem dúvida crucial, sendo hoje evidente o longo caminho ainda por percorrer”. O professor também detalhou que a interdisciplinaridade decorreu da necessidade em superar problemas concretos e desafios específicos, como energia, água, clima, alimentação e saúde, onde é necessário apostar num maior diálogo entre as áreas do conhecimento.

O apelo da abordagem interdisciplinar não é de hoje. Evoca um debate amplo e longevo, com episódios históricos marcantes, como as ‘Science Wars‘ dos anos 1990, por exemplo. Mas tem efetivamente ressurgido com a premência das problemáticas sociais – particularmente flagrantes em contextos periféricos (embora não exclusivos)- e a retórica derivada dos objetivos do desenvolvimento sustentável (ODSs, Nações Unidas 2015). As formulações mais recentes das políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), em sentido de promover projetos colaborativos, estão também intimamente ligadas às virtudes atribuídas às práticas interdisciplinares.

A relevância, de um ponto de vista institucional, “deriva dessa aproximação entre grupos, envolvendo docentes e discentes de programas e até realidades diferentes”, explica Brandão. Exemplificando, o professor cita, no Paraná, por exemplo, o grupo CTS do IFPR de Paranaguá que aderiu e vem participando das atividades. E também na UFPR, a convergência dos programas de Políticas Públicas e Gestão da Informação contribui, assim como a aproximação da UTFPR / PPGTE (Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Educação) a estes dois programas da pós-graduação da UFPR. Além do já citado professor-doutor Tiago Brandão*, compõem a Comissão Organizadora Geraldo Augusto Pinto (UTFPR | PPGTE), Carolina Bagattolli (UFPR | 4P) e Rodrigo Botelho-Francisco (UFPR | PPGGI).

O evento até agora…

A primeira live realizada, “O campo dos estudos CTS na atualidade”, que contou com a participação de Gilson Leandro Queluz, professor da UTFPR, trouxe um olhar sobre o campo CTS, a sua matriz fundacional nos anos 1960/70, os autores de referência, os estudos marcantes e suas principais premissas, abordando também tensões e contradições pertinentes. “Quanto a mim, ficou bastante claro que o campo CTS não é apenas, hoje em dia, um domínio de determinados estudos interdisciplinares, mas é marcado pela pluralidade de abordagens, contando quer com contributos disciplinares (História, Sociologia, Antropologia), mas também com abordagens já vincadamente transdisciplinares (ex.: Políticas Públicas, temas multidisciplinares, etc), com metodologias abertas à sociedade e aos saberes que no terreno marcam o devir sócio-técnico de nossas sociedades”, opinou professor Tiago.

Na segunda live, “Pensamento crítico em CTS”, foi contemplada a leitura marxista acerca dos problemas e condicionantes da tecnociência em contextos periféricos. “Essa leitura, embora não exclusivista do/no campo, proporciona-nos um conjunto de racionalidades interpretativas que nos são fundamentais para lermos o nosso tempo e os próprios determinantes da CTI em nossas sociedades”, descreveu doutor Brandão, “pautando as potencialidades e os limites do investimento em C&T (Ciência & Tecnologia)”. A palestra foi dada pelos professores Carlos Eduardo da Rosa Martins (da UFRJ) e Diógenes Moura Breda (da Unicamp).

A terceira, de título “A CTI perante as epistemologias do Sul”, aprofundou o debate sobre o pensamento crítico contemporâneo, trazendo o prof. Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, que falou sobre o alcance do seu pensamento sobre as epistemologias do sul, ao mesmo tempo em que a prof.ª Lea Velho “nos trouxe um olhar crítico sobre o conceito vigente nas políticas de CTI, seus limites e problemas (ex.: tecnocracia, produtivismo, academicismo, etc.)”, relatou Tiago.

No dia 12 de abril, o Colóquio trouxe ainda “Ciência, Tecnologia e os estudos de Gênero”, live apresentada pelas professoras Nanci Stancki da Luz, da nossa UTFPR, e Inés Pérez, da Universidade Nacional de Mar del Plata, instituição da Argentina. Temas imprescindíveis em um universo de conhecimentos científicos diversos aplicados a um mundo palpável e complexo… O que você está esperando para participar?

Canal do I Colóquio em CTS no YouTube:
https://www.youtube.com/channel/UCRcAtNGBWQ3ppe27GsUD98g/featured

Matérias a respeito:
https://htc.fcsh.unl.pt/htc-ufpr-e-utfpr-lancam-o-i-coloquio-internacional-em-ciencia-tecnologia-e-sociedade/
https://www.ufpr.br/portalufpr/eventos/ufpr-utfpr-e-universidade-nova-de-lisboa-realizam-coloquio-internacional-sobre-ciencia-tecnologia-e-sociedade/

*Tiago Brandão
Ph.D em História
Investigador Integrado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH)
Docente da Pós-Graduação em Gestão e Políticas de Ciência e Tecnologia (PGPCT)
Grupo de Pesquisa ‘História, Territórios e Comunidades’ (HTC)
Universidade Nova de Lisboa, NOVA-FCSH