TCC do curso de Arquitetura e Urbanismo do campus Curitiba recebe prêmio nacional

Arquitetura na necrópole

“Necrópole” é uma palavra usada para se referir a cemitérios. Ainda que este seja um tema que possa causar aversão em algumas pessoas, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) entitulado “Genius Loci, Luz e Matéria” de Murilo Rodrigues, hoje egresso do curso de Arquitetura do campus Curitiba, mostra como esses locais podem ser fascinantes e, se não agradáveis – por se associarem à perda de entes queridos, reconfortantes. Tanto é que o trabalho foi vencedor da quarta edição (2020) do Prêmio Rosa Kliass, que é organizado pela ABAP (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas) e reúne projetos de conclusão de curso de instituições públicas e privadas de todo o país voltados ao paisagismo.

No dia 19 de novembro foi anunciado o resultado do Prêmio em um evento online, surpreendendo Murilo. “Ver uma intervenção cemiterial vencendo um concurso nacional de paisagismo não é algo esperado”, declarou o arquiteto. Mas a qualidade do trabalho o destacou e, como veremos, cemitérios podem ser locais bastante ricos e propícios à intervenção paisagística. No curso de Arquitetura e Urbanismo da UTFPR o estudante deve realizar a disciplina de TCC1, na qual, no caso do trabalho do Murilo, a orientadora foi Giceli Portela, que depois afastou-se para realizar pós-doutorado, e TCC2, que passou a ser orientada por Armando Ito, ambos professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DEAAU) em Curitiba.

Conforme explica o professor Ito, o produto do TCC2 é sempre uma proposta projetual a partir dos subsídios obtidos no TCC1. Nesta primeira etapa, realizada no primeiro semestre de 2019, Murilo identificou a necessidade de reestruturação do Cemitério Municipal São Francisco de Paula, na região central de Curitiba, e de apresentar uma nova percepção dos espaços cemiteriais. Sobre o que o levou a se interessar por estes locais deveras peculiares, Murilo relata que no primeiro ano do curso teve a oportunidade de fazer um estágio de campo durante alguns meses no Cemitério Municipal, onde constatou a riqueza patrimonial destes espaços. Satisfeito com a experiência, desde então passou a estudá-los, encontrando no tema uma maneira de abordar os quatro grandes pilares da profissão de arquiteto: Arquitetura, Urbanismo, Paisagismo e Patrimônio.

Murilo passou esse primeiro semestre visitando semanalmente o São Francisco, entrevistando pessoas, reunindo dados e fazendo levantamentos, muita vezes embaixo de chuva, conforme conta. Mas “eu amava estar ali”, revelou. O objetivo destas ações é fundamentar o tema e obter subsídios, de modo que foi também realizada uma pesquisa bibliográfica exploratória, resultando em uma conceituação sobre a temática. Além disso, Murilo estudou casos análogos para a compreensão do tema, bem como fez estudos de campo, o que permitiu elaborar um diagnóstico da área de intervenção e diretrizes projetuais. Essa investigação se destaca por reunir análises arquitetônicas, urbanas e patrimoniais acerca do Cemitério Municipal São Francisco de Paula. O autor contou que a monografia foi muito bem recebida pela banca avaliadora, que “emocionada me pediu uma visita guiada ao São Francisco no dia seguinte”.

De forma que esta primeira etapa do TCC leva a entender o “genius loci”, que é o “espírito do lugar” e o resultado projetual é a valorização desse espírito. Portanto, em TCC2, no segundo semestre, ocorre a materialização das ideias estabelecidas no TCC1 na forma de projeto e representada por meio de desenhos bidimensionais, perspectivas, maquetes 3D. O foco foram a discussão e o alinhamento, durante toda projetação, aos conceitos estudados e diretrizes projetuais formulados no primeiro semestre, que consistiram na proposta projetual. “Com o resultado da pesquisa estava claro o que eu precisava fazer: desvelar a necrópole mais antiga da cidade! Reapresentá-la para as pessoas como um local público, que carrega histórias, emoções, e uma variação imensa a nível arquitetônico e escultórico” – declarou Murilo à reportagem. “A primeira decisão projetual foi derrubar os grandes muros que transmitem hostilidade e abrir este local para o olhar da cidade” – completou.

O autor lembra que, por tratar-se de um sítio histórico, deveriam ser seguidas as declarações patrimoniais internacionais com a finalidade de preservar de modo adequado todo o conjunto de túmulos históricos. “A partir daí, uma série de diretrizes foi traçada para integrar a cidade dos mortos à cidade dos vivos, transformando esta grande necrópole em uma praça de riqueza histórica e patrimonial incomparável” – explica. Assim, o projeto resultou em um novo prédio no lugar do existente, com uma nova atmosfera aos visitantes e enlutados; foi proposta uma grande intervenção paisagística em todo o cemitério, que revela e valoriza a sua riqueza patrimonial, que cria espaços significantes aos visitantes e transeuntes em todo o espaço; e uma nova construção na praça de entrada que respondesse às demandas atuais dos serviços funerários e oferecesse suporte à educação patrimonial. Também foi apresentada uma possibilidade de expansão cemiterial que garantisse o uso ativo do espaço nos próximos anos sem prejudicar o conjunto histórico. O projeto foi avaliado no segundo semestre de 2019 e recebeu avaliação máxima e unânime da banca.

Este Prêmio Rosa Kliass, que carrega o nome de uma das maiores e mais importantes paisagistas do Brasil, dado ao TCC de autoria do então estudante Murilo Rodrigues, atesta o reconhecimento da qualidade dos professores, dos alunos e do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UTFPR, pois a avaliação é feita por uma comissão julgadora formada por professores de outras instituições de ensino, arquitetos paisagistas e especialistas na área da arquitetura paisagística. Adicionalmente, Murilo revelou que este prêmio será importante para sua vida profissional, mas além disso: “percebo-o como um incentivo a todos os pesquisadores que encontram um aleph e se veem na missão de apresentá-lo para o mundo!” – declarou. Atualmente morando em Portugal e cursando doutorado em Arte e Patrimônio na Universidade de Lisboa, ele está disposto a continuar estudando necrópoles enquanto espaços patrimoniais e concluiu: “sou muito grato por ambos meus orientadores, pela banca avaliadora que me motivou a continuar e por todos meus amigos que me apoiaram durante o processo.”

Para conhecer mais sobre a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP) e o prêmio Rosa Kliass:
https://premiorosakliass.abap.org.br/node/737

As imagens mostradas na matéria foram produzidas pelo autor para seu TCC.