Bate-papo com… Ismael Scheffler e Agatha Pradnik

A peça OCO foi um dos sucessos do circuito cultural curitibano de 2019. Produzida pelo TUT, teatro do campus Curitiba da UTFPR, como um projeto de extensão universitário, a peça reuniu um público de aproximadamente 1.700 pessoas em suas 12 apresentações, envolvendo um equipe direta de aproximadamente 30 pessoas na produção, entre professores e estudantes da UTFPR, UFPR e UNESPAR/FAP, além de profissionais. O TUT é coordenado por Ismael Scheffler, professor e teatrólogo da UTFPR, que concebeu, produziu e dirigiu o espetáculo, contando com o apoio de uma equipe de profissionais voluntários e contratados para os elementos da apresentação. Para a sonoplastia, Agatha Pradnik teve o desafio de compor músicas especialmente para este espetáculo de teatro que não utilizava falas.

Foto de: Daniel Patire (2019)

A trilha sonora está agora disponível nas seguintes plataformas:

YouTube:
https://www.youtube.com/playlist?list=PLOFNTr8V5FmOFVB_NvKTTLbb1YdDEBUZC

Spotify:

http://open.spotify.com/album/68nBEr6EXkdiaQXZ9EEORV

Deezer:
https://www.deezer.com/us/album/140594952


iTunes:http://itunes.apple.com/us/album/id1506823809

Agatha e Ismael concederam entrevista ao e-campus falando sobre o trabalho musical em OCO, o processo de criação e o desafio de musicar um espetáculo com tal proposta.

e-campus: Como se deu o encontro entre vocês e a articulação da proposta?

Ismael: Em 2016, participamos de um projeto juntos, no qual eu fazia direção e produção dramatúrgica e Ágatha foi chamada para compor a trilha. Era também um espetáculo sem falas, Esperança, apresentado apenas no terminal metropolitano de Fazenda Rio Grande. As músicas eram executadas ao vivo pela Ágatha, que toca acordeon. A parceria foi ótima. Ágatha tem muita sensibilidade, abertura, paciência e se propõe a algo bastante complexo, que é a criação de músicas para cenas que estão em processo de criação. Quer dizer, não é como num filme em que ela vê a cena pronta e compõem em casa sozinha. Existe um trabalho também na sala de ensaio em que a música surge com o movimento corporal, com a história da cena e a cena vai sendo construída conforme a música vai trazendo elementos importantes. Escrevemos um artigo a respeito deste processo de criação, algo também precioso, por que há pouca publicação de trate sobre composição de música para teatro no Brasil. Quando ficou definido que, em 2019, criaríamos um espetáculo corporal sem fala, e contando com o apoio financeiro da direção do campus Curitiba, pensei imediatamente na Ágatha para a criação musical.

Agatha: Nós já nos conhecíamos de outro trabalho para o qual eu havia produzido a trilha, também todo composto por cenas de teatro gestual; então quando o Ismael me chamou para encarar essa nova proposta, eu já tinha a experiência de trabalhar com teatro sem falas e conhecia o trabalho do Ismael. Acho que isso facilitou a nossa comunicação e a articulação com relação a essa criação. De qualquer maneira, foi algo novo, pois para dar mais “corpo sonoro” para essa sonoplastia que pedia algo mais imponente, eu precisei gravar outros instrumentistas e envolvê-los no processo; foi algo bem interessante.

não é como num filme em que ela vê a cena pronta e compõem em casa sozinha. Existe um trabalho também na sala de ensaio em que a música surge com o movimento corporal, com a história da cena e a cena vai sendo construída conforme a música vai trazendo elementos importantes

Ismael Schefler

e-campus: E a criação? Ismael explicou que Agatha não criou sozinha e entregou o produto final. Mas foi sendo produzida na medida em que o espetáculo ia “criando cara“? Quais eram as expectativas?

Ismael: O processo foi bastante complexo, porque o espetáculo não tinha um roteiro totalmente definido no início do trabalho. Primeiramente, criei um argumento geral que tinha determinadas etapas na história. Mas não criamos a peça na sequência. Tinha cenas do início, daí ia acontecer coisas que não estavam certas ainda, e mais algumas cenas sequenciais, mais buracos… quer dizer, quando Agatha começou a compor, eram músicas soltas, alguns sons. Definimos um perfil de sonoridades, uma identidade, daí ela começou a produzir algumas células musicais, pensar no tipo de instrumento. E mesmo quando algumas músicas já estavam sendo definidas, a duração da música ainda não estava fechada. Às vezes ela trazia uma versão com uma duração a partir do que tínhamos cronometrado num ensaio. Passadas duas semanas, ela trazia uma versão da música. E de 3 minutos, a cena virou 5. Passado mais um tempo, resolvemos fechar a cena e ela tinha sete. Muito complexo isso, porque não é apenas ficar repetindo a mesma coisa. E ela tinha que criar a música, escrever as partituras, pensar nos arranjos, escolher os instrumentos, convidar os músicos, dirigi-los, gravar e mixar… Teve algumas músicas que definimos um tempo estimado, mas a cena não estava pronta, podia mudar ainda, ter ações a mais ou a menos. Daí pedi que ela fizesse a música com um tempo e depois fazia a cena se adequar. Algumas poucas músicas têm uma duração precisa, coincidem o final da música com a cena, mas evitamos isto porque a movimentação das atrizes em geral não tinha uma coreografia fechada metricamente. Por isso falo de paciência, porque, às vezes, as orientações que eu dava à Ágatha eram muito abertas, imprecisas. Há uma generosidade criativa muito bonita. Outra dificuldade era considerar que a trilha musical não era apenas uma colagem de várias músicas, mas havia uma linha narrativa final que tinha que fazer sentido e conduzir as atrizes e os espectadores em um envolvimento coerente e preciso.

Agatha: O processo de criação da trilha para mim é muito relacionado a acompanhar o desenvolvimento da cena. Quanto melhor eu entender o processo e o porquê de cada elemento, mais conexão eu consigo criar entre o som e a performance. Nos primeiros dias, eu levei meu instrumento para improvisar algumas ideias durante os ensaios. Assim eu podia testar e já decidir com o diretor as diretrizes da composição, tanto no sentido da narrativa – momentos de cada sensação e mudanças entre eles – quanto da escolha dos elementos – instrumentos, por exemplo. Vendo a cena, o som já ia sendo criado na minha cabeça, a partir daí era produzir. Com mais material sonoro e mais cenas já criadas, eu ia novamente aos ensaios para lapidar o que eu já havia criado e testar novas ideias para as novas cenas.

Agatha durante os ensaios do espetáculo cronometrando o tempo da trilha sonora com a performance visual.

e-campus: E a playlist? Qual a intenção e qual a importância de divulgarmos esse trabalho no contexto da cultura produzida por uma Universidade Pública?

Ismael: Até a estreia foi um deus-nos-acuda para darmos conta de tudo. Pense que todo trabalho musical, exceto algumas poucas reuniões de produção que fizemos em março e abril, foi composto entre junho e setembro. Composto, testado, definido, escrita partitura, gravado com diversos músicos, editado, etc, etc. Dias antes da estreia ainda estávamos acertando a duração de algumas faixas e Ágatha ensinando às atrizes algumas marcações da música que tinha que coincidir ação e som com exatidão, como a última cena da peça. Estava tudo ficando muito bonito, uma qualidade musical incrível. Uma preciosidade você ter composições autorais para um espetáculo. Conforme estreamos, a cada apresentação vinham pessoas perguntar sobre a trilha e querer saber onde poderiam acessar para ouvir em casa. O espetáculo pode ser definido como um “teatro visual”, em razão não termos fala e as imagens da peça serem protagonistas. Ou referimos como um “espetáculo de movimento”, ou “teatro físico”. Mas existe um apelo musical incrivelmente potente, envolvente, arrebatador. Tem sonoridades que foram pensadas em como mexer com o corpo do espectador, sobre sua respiração, sobre suas entranhas. Lembro bem de um rapaz, estudante de jornalismo, que após assistir a peça, na saída, disse que “precisava muito” poder ouvir as músicas novamente. Disponibilizar as músicas é uma forma de perpetuar este trabalho potente que a Ágatha empreendeu, de valorizar o trabalho dos músicos, de desdobrar a arte produzida em torno do espetáculo OCO para fruição de um número maior de pessoas.

Agatha: É importante mostrar que existe a possibilidade de criar um espetáculo único, onde se vê que o fazer teatral não é apenas o ator e o diretor. A trilha sonora dá significado para a cena tanto quanto a atuação, tanto quanto a luz e o cenário, é importante ressaltar todos esses elementos. E, ao apresentar a trilha fora do teatro, é interessante observar os fundamentos que ela carrega, as sensações que ela desperta mesmo em quem não tenha assistido o espetáculo. No Youtube, as músicas são acompanhadas de imagens das cenas para as quais foram criadas, o que será que cada um imagina enquanto ouve? Qual sensação que isso traz? É instigante pensar por esse lado.

e-campus: Nestes tempos de Corona, projetos culturais estão suspensos. Mas existe alguma perspectiva para que possamos ver novamente essa parceria?

Ismael: OCO estava com apresentações marcadas para nova temporada em início de abril, na programação do Fringe, no Festival de Teatro de Curitiba, participando da Mostra Universitária. Teríamos mais duas atividades do festival realizadas na UTFPR, que era sobre acessibilidade no teatro e a mediação na formação de espectadores, duas atividades pedagógicas importantíssimas. Primeiramente o Fringe, como todo Festival, foi adiado para setembro e, posteriormente, cancelado. Já tínhamos marcada uma segunda temporada nossa de 2020 para junho, mas já está claro que não teremos. O desejo enorme é de voltar. Queremos muito, mas só os próximos meses dirão. Enquanto isto, fica disponível a trilha para que possam ouvir em casa. Esperamos que ela traga boas lembranças para quem viu a peça e seja inspiradora para quem não pode assistir Também estamos trabalhando neste período na produção de um livro com fotos, registros de processo de criação e reflexões teórico-científicas.

Agatha: Artista não para, não é mesmo? Acredito que uma parceria como essa só tende a se fortalecer. Estamos sempre pensando em como potencializar o que já foi feito, como a publicação da trilha, e qual será a próxima criação.

Foto de: Daniel Patire (2019)

O OCO é daqueles espetáculos que, para ser compreendido, precisa ser não apenas assistido, mas vivido. Era domingo à noite, catei meu namorado e fui pra UTFPR. Vamos assistir o OCO. É de graça. Sorri, chorei, me senti angustiado, assustado, amei. Tudo isso de graça, como deve ser. Em um sistema pós-industrial em que emoções e a cultura são fabricadas, consumidas na ausência da intensidade e possivelmente inseridas no sistema de troca por recursos capitais, o OCO é a resistência. O OCO é haute couture, é popular, é Teatro Universitário. O OCO é para o povo, assim como o povo é para o OCO. Eu sorriria, choraria, me angustiaria, me assustaria, eu amaria novamente para ver a peça. É tudo que posso oferecer ao espetáculo, assim como é tudo que o espetáculo me pede em troca.

Francisco Camolezi

Francisco Camolezi

Aluno do curso Bacharelado em Comunicação Organizacional na UTFPR. Assessor de imprensa no campus Curitiba da UTFPR.