Bate papo com… Andréa Kominek!

Curitiba, como muitas outras cidades, está repleta de placas, monumentos, nomes, povos e histórias. Alguns chamativos, famosos, outros apagados e sujeitos à marginalização. Entre estes, encontra-se, na praça Santos Andrade, uma pequena placa de bronze repleta de nomes, inaugurada no centenário da Lei Áurea (1988), lei responsável pelo fim oficial da escravidão no Brasil.

Daí podem surgir diversos questionamentos, mas a princípio, aquele que intriga pesquisadores como Andréa Kominek, professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE) é: “quem são esses nomes?”. Aqui, assistimos ao nascimento obra “Os nomes da placa: a história e as histórias do monumento à Colônia Afro-brasileira de Curitiba”,que encontra-seatualmente em processo de editoração. O livro apresenta a biografia de cada uma das personalidades homenageadas nesta placa.

O percurso da pesquisa para este livro e a procura dos nomes e histórias evocados pela placa, resultaram em algo além da proposta inicial: “Para além da placa: outras histórias da negritude em Curitiba”, que acaba de ser lançado, é uma obra que tem como foco a coletividade da resistência do povo negro na capital paranaense.

A fim de compreender e compartilhar a experiência por trás do desenvolvimento de um projeto tão importante para a compreensão da luta contra o racismo e seus impactos na história de Curitiba, a Assessoria de Comunicação do campus Curitiba conversou com a professora Andréa Kominek, uma das organizadoras do livro recentemente lançado “Para além da placa: outras histórias da negritude em Curitiba”.

ASCOM: O que há, afinal, para além da placa?

Andréa Kominek: Primeiro é importante explicar de que placa estamos falando… há uma placa de bronze, na Praça Santos Andrade, com o nome de 68 personalidades negras de Curitiba. A placa foi inaugurada em homenagem ao centenário da Abolição da Escravatura (Lei Áurea), em 1988. Mas a placa traz apenas seus nomes, sem nenhum detalhe ou explicação sobre quem sejam essas pessoas. A partir desta constatação, surgiu o projeto “Os nomes da Placa” (ainda a ser lançado), que traz uma pequena biografia de cada uma destas pessoas. Ao realizar a pesquisa para o projeto dos “nomes da placa”, ao longo das falas e histórias narradas, surgiram várias siglas, grupos, movimentos… e assim nasceu o presente projeto: “Para além da Placa” fala dos grupos, movimentos, instituições que foram sendo criadas ao longo da militância negra em Curitiba. Instituições que alimentaram e foram sendo alimentadas pelas ações individuais apresentadas no primeiro projeto.

ASCOM: O livro fala sobre resistência negra em Curitiba. Em algumas palavras, como poderíamos destacar elementos dessa resistência?

Andréa Kominek: Resistir ao poder hegemônico e oficial, seja ele qual for, sempre é um grande desafio. A resistência negra enfrenta este desafio há muitos anos. Esta resistência ocorre de forma individual, cotidiana, subjetiva e personalizada; mas também de forma organizada, coletiva e institucionalizada. O primeiro livro: “os nomes da placa”, coloca ênfase nas ações individuais, que ocorrem em diversas áreas de atuação pessoal e profissional. O presente livro, “para além da placa”, enfatiza as ações organizadas coletivamente.

ASCOM: De que forma se dá o apagamento da comunidade negra em Curitiba e como podemos lutar contra esses impulsos que insistem em sua marginalização?

Andréa Kominek: A tentativa de apagamento da história negra ocorre de diversas maneiras. Autores e autoras negras não aparecem nas bibliografias dos cursos universitários; temas e histórias de origem europeias não figuram nos livros didáticos. Nestes livros, os negros aparecem somente como “escravos”; personalidades negras não são conhecidas nem homenageadas na cidade, sob forma de estátuas ou nomes de ruas; não temos nenhuma festa tradicional africana, como temos a festa da colônia italiana, ucraniana, japonesa, etc. Muitas outras formas poderiam ser elencadas…

Curitiba não é uma cidade branca, europeia. Somos, felizmente, muito mais do que isso. Negar essa cara de Curitiba nos empobrece culturalmente, além de ampliar o abismo social já existente.

ASCOM: Na contracapa do livro, escrita por Megg Rayara, travesti, preta e doutora em Educação pela UFPR, podemos notar a valorização do coletivo como uma importante tradição africana. Durante a elaboração do projeto, de que forma e onde a valorização do coletivo é identificada?

Andréa Kominek: O projeto do livro foi pensado, construído e executado a muitas mãos, cabeças e corações: organizadoras e organizador do livro, autoras e autores dos capítulos e entrevistadas e entrevistados. Além dos textos do prefácio e apresentação. Construção coletiva na mais profunda filosofia UBUNTU.

ASCOM: Nota-se que o livro “Para além da placa: outras histórias da negritude em Curitiba” tem como objetivo não apenas o compartilhamento de conhecimento, mas também o reconhecimento dos povos negros em Curitiba. Como foi experiência de desenvolver um trabalho como pesquisadora e ativista?

Andréa Kominek: Realizar esta pesquisa trouxe duas percepções muito fortes: primeiro, quanto da memória do nosso povo e do nosso país estamos perdendo…. muitos relatos já não são possíveis porque as pessoas já faleceram, fotos se perderam, documentos foram destruídos… trata-se de uma riqueza que precisa ser protegida; segundo: Curitiba não é uma cidade branca, europeia. Somos, felizmente, muito mais do que isso. Negar essa cara de Curitiba nos empobrece culturalmente, além de ampliar o abismo social já existente.

ASCOM: A organização desta obra representa um episódio importante na sua carreira como pesquisadora. No entanto, gostaríamos de saber se alguma história, organização ou sujeito que você veio a conhecer durante a produção do livro veio a marcar sua trajetória.

Andréa Kominek: Impossível citar apenas um personagem ou organização. A maior marca que ficou para mim é a certeza de que somos maiores do que pensamos, de que o coletivo nos faz maiores e mais fortes, mas, ao mesmo tempo, que somos pequenos e frágeis… somos humanos… mas dentro das nossas limitações humanas e do cotidiano prosaico da vida comum, cada um de nós, em seu contexto, é capaz de contribuir para a mudança que precisamos que ocorra na sociedade… apesar das nossas limitações individuais, ou talvez, devido a elas, não percebemos o quanto somos fortes e capazes de lutar e transformar. O racismo estrutural contribui para que esta força não seja percebida, nem valorizada. A mudança começa com cada um. E deve começar hoje! Já!

Organizado por Andréa Kominek, Ana Crhistina Vanali, Celso Fernando Claro de Oliveira e publicado pela Editora Fi, o livro “Para além da placa: outras histórias da negritude em Curitiba” já se encontra disponível para download gratuito no site. Clicando aqui, você será direcionado para a página do livro, onde poderá fazer o download do arquivo. Vidas negras importam!

Francisco Camolezi

Francisco Camolezi

Aluno do curso Bacharelado em Comunicação Organizacional na UTFPR. Assessor de imprensa no campus Curitiba da UTFPR.