“Conflitos urbanos em Curitiba” reúne estudos sobre a cidade desde 2012

O livro “Conflitos urbanos em Curitiba” é organizado por Simone Polli , José Ricardo Vargas de Faria, Maurini de Souza e Ramon José Gusso, professores universitários e pesquisadores. Simone (UTFPR) e José Ricardo (UFPR) são coordenadores do Observatório de Conflitos Urbanos de Curitiba, criado em 2012 e cujo trabalho embasa a obra.

É Simone, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DEAAU) do campus Curitiba da UTFPR, doutora em Planejamento Urbano e Regional, quem nos conta sobre a publicação. Trata-se da compilação dos trabalhos de 14 autores no total, entre professores e alunos de graduação, pós e mestrado das universidades Tecnológica e Federal do Paraná.

A ideia para o livro parte da observação de que “o conflito é a possibilidade de por na mesa diferentes discursos sobre a cidade, outras visões sobre ela”. E o que é o conflito urbano? “Um conjunto de protestos, manifestações que tenham como motivo uma questão, p.ex, transporte, moradia ou até mesmo feminismo. Se há divergência de qualquer ação estatal ou privada pela população e tem uma manifestação, isso provoca uma disputa de narrativas. A definição estipula que deve haver manifestação pública, uma ação coletiva”.

A primeira parte do livro é mais metodológica e a segunda constitui-se em  estudos de casos selecionados a partir da formação de um banco de dados, composta por notícias da mídia em geral, que foram catalogadas e classificadas pelo Observatório de Conflitos Urbanos de Curitiba, cuja inspiração é o observatório similar do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ. Esse Instituto, por meio de pesquisa de planejamento urbano criou uma nova forma de ver a cidade, sistematizando e analisando as insurgências.

A exemplo daquele, o observatório na capital paranaense monitora notícias de jornais diversos, tudo que os meios de comunicação colocam sobre qualquer questão envolvendo protestos, ou seja, onde há disputa de narrativas, quais objetivos são reivindicados, etc. Importante observar que, em Curitiba, o governo construiu uma noção de cidade-modelo. Nela, tudo seria harmonioso. Vendeu-se uma imagem de cidade, mas a realidade mostra que essa pretensão ficou só na propaganda… o transporte ficou ultrapassado e a questão das favelas em Curitiba é equivalente à cidade de São Paulo.

Em contraposição ao planejamento urbano tecnocrático, o livro pretende transformar em produto as discussões do Observatório, revelando em seus artigos as informações destoantes e trazendo questões pouco exploradas pela mídia hegemônica. Todos os autores pesquisadores não entendem os conflitos como algo negativo, mas que deve aparecer como parte da cidade.

Afinal, o que faz diferença é observar os sujeitos políticos, a formação da consciência dos habitantes da cidade enquanto sujeitos autônomos. “Quantas praças homenageiam mulheres em comparação com as que homenageiam homens?” – pergunta Simone. Valorizar as pessoas como sujeitos políticos implica realizar um planejamento vindo da população para os governantes.

Conflitos e protestos ocorrem em todas as cidades, o livro analisa sua continuidade e efetividade. Vivemos com espaços de convivência segregados e segregadores porque não temos uma cidade fundada na compreensão do conflito. O projeto do livro foi possível devido a um financiamento do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e vale notar que Carlos Vainer, professor do IPPUR carioca, evidenciou a importância de um livro assim em Curitiba, uma cidade com características europeias.