Bate-papo com… Jair Urbanetz Junior

Inauguração do estacionamento fotovoltaico. Marcos Schiefler Filho (diretor-geral do campus Curitiba), Jair Urbanetz e Jardel Eugênio da Silva (orientando de mestrado)

Jair Urbanetz está na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) como professor desde 1996. São 23 anos, mas não foi o início. A instituição faz parte da sua vida desde 1981: “estudei aqui  desde o preparatório para o técnico, no ano de 1981. Aí, em 1982, entrei no técnico em Eletrônica. Depois em 1986, entrei em Engenharia Industrial Elétrica com ênfase em Eletrotécnica e depois, já como professor, cursei uma especialização em Gerência da Manutenção, aqui na UTFPR também. Como professor, tive a oportunidade de sair para fazer mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Eletrônica de Potência, e depois fiz doutorado na área de Energia Solar Fotovoltaica, que é a minha linha de pesquisa, também na UFSC.” 

Hoje atua nos estudos sobre Energia Solar Fotovoltaica; recentemente inaugurou, juntamente com estudantes e parceiros de pesquisa, um estacionamento fotovoltaico (duas vagas) na sede CIC-Neoville do campus Curitiba. Urbanetz fala sobre seus estudos e o trabalho com energia solar, no qual tem sido referência.

E-campus: O que é, para leigos, a Energia Solar Fotovoltaica?

Jair Urbanetz: É a geração de energia elétrica diretamente a partir da luz do sol. Um painel fotovoltaico faz a conversão da energia solar, da luz do sol, em energia elétrica diretamente.

E-campus: O que é esse estacionamento que está sendo colocado no CIC-Neoville?

Jair Urbanetz: Fizemos a inauguração do estacionamento fotovoltaico, em que construímos duas vagas com cobertura que contém módulos fotovoltaicos cobrindo duas vagas de automóvel. Esses módulos fotovoltaicos estão conectados a um inversor que se conecta à rede elétrica da concessionária dentro da universidade. E aí, constantemente, o sol ‘entrega’ energia solar que acaba sendo convertida em energia elétrica e sendo disponibilizada na rede da universidade, ou seja, está sendo consumida. Mesmo que não estivesse sendo consumida, ela injeta na rede da concessionária e seriam gerados créditos de energia para uso posterior. Então, como o consumo da universidade é grande, frente ao que está sendo produzido, a energia acaba sendo consumida dentro da própria universidade. 

Em uma residência, por exemplo, existem momentos que você tem excedentes de energia e essa energia é exportada para a concessionária, é no período noturno que você usa a energia da concessionária, isso é contabilizado no medidor de energia.

E-campus: Isso é muito caro?

Jair Urbanetz: Diria que hoje o preço está bastante acessível. Há poucos anos, o preço estava ao alcance de poucos, hoje houve uma diminuição muito grande dos valores e é algo factível. Pensando assim, em tempo de retorno do que você investe, do que você economiza nas faturas de energia, hoje em uma residência, dá para falar em torno de cinco anos. Em um ambiente industrial ou no caso da universidade, que tem energia com um custo mais barato, aí esse tempo de retorno se torna um pouco maior, dá para dizer em algo em torno de 7 a 10 anos.

E-campus: Como foi o processo do estacionamento?

Jair Urbanetz: Na verdade, o estacionamento solar é um desejo que eu tinha há bastante tempo, de ter dentro da universidade vagas exclusivas para veículos elétricos. Eu já tinha visto essas iniciativas fora do Brasil. 

Recentemente fiz uma visita a Portugal e tive a oportunidade de visitar a Universidade de Coimbra, onde você encontra lá, nos pátios dos estacionamentos, vagas exclusivas para carros elétricos. Eu já tinha vontade de fazer essa interação. 

A questão é: a energia solar fotovoltaica permite produzir energia elétrica e quando se fala em ‘mobilidade elétrica e veículos elétricos’ tem sempre aquela questão de onde suprir a energia elétrica, e as duas coisas casam perfeitamente: o fato de você fazer um abrigo para o seu veículo que, ao mesmo tempo, esteja produzindo energia elétrica, disponibilizando essa energia para a rede elétrica o tempo todo e, ainda, depois você pode plugar o seu carro elétrico lá para essa recuperação. 

Eu venho orientando uma dissertação nos últimos anos, do Jardel Eugênio da Silva, sobre o tema; eu já orientei Trabalhos de Conclusão de Curso sobre carros elétricos, mas mais a nível de protótipo, coisa menor, junto com o professor Eloy Casagrande, no Escritório Verde; a gente também trabalhou em cima de um protótipo que foi doado pela universidade, o veículo Pompeo, mas sempre tive a vontade de converter um carro de verdade. Aí, junto com esse meu aluno do mestrado, a gente adquiriu o veículo, um Mercedes-Benz 2001; fizemos investimentos necessários, a aquisição dos equipamentos, do motor, controlador, e fizemos a implementação do veículo, mas eu sempre busquei e pensei nessa interação: veículo elétrico e sistema fotovoltaico. A dissertação do Jardel é exatamente isso: ‘Veículos Elétricos e a Geração Distribuída a Partir de Sistemas Fotovoltaicos’, buscando essa interação.

Nesses últimos 2 anos da dissertação do Jardel, a gente conseguiu chegar em um veículo que ainda tem algumas limitações, a gente sabe, mas que atende o que a gente pensou lá no início.”

E-campus: Quanta horas leva para recarregar um carro no estacionamento fotovoltaico?

Jair Urbanetz: Pelo menos oito horas. É pela característica da bateria que a gente utilizou ali, diferente dos veículos hoje disponíveis no mercado internacional que usam bateria de lítio. A gente está usando bateria-chumbo ácido porque é o que cabe no nosso orçamento. 

Para a tração elétrica, dos veículos que hoje estão disponíveis e que são fabricados como veículos elétricos, a bateria de lítio tem menos peso e menos volume, então ela é mais adequada. Quando usamos a bateria de chumbo-ácido, a gente fica limitado no tamanho da bateria e no peso dela, então conseguimos colocar um número de baterias e só, então isso acaba limitando um pouco o desempenho do veículo.

E-campus: Isso seria o cerne para que pessoas pudessem adaptar seus carros?

Jair Urbanetz: Isso. Você tem um veículo com todas as finalidades de um veículo elétrico, porém com limitação de autonomia e com um custo bem mais baixo. Então, na verdade, a gente só não fez um veículo elétrico com baterias de lítio por questões orçamentárias.

E-campus: A recarga para a bateria de lítio é mais rápida?

Jair Urbantez: Do ponto de vista de carga e recarga da bateria, ela também recarrega lentamente, também varia de 6 a 8 horas o carregamento dela.

E-campus: Se eu carrego agora e coloco um carro em movimento, por quanto tempo essa carga máxima vai fazer com que o carro continue em movimento?

Jair Urbanetz: Isso é muito variável, depende de quantas baterias eu coloquei no veículo. Então hoje, veículos comerciais vão de 100 km de autonomia a 400 km de autonomia, isso depende do quanto você investiu nesse veículo. Um veículo com baterias de chumbo-ácido chega numa relação peso e volume que é incompatível com o tamanho do carro, então você vai pondo bateria até preencher o espaço do veículo; nesse caso, não é o investimento que é o limitante, o limitante é o volume. Já na bateria de lítio, os fabricantes optam por chegar até um valor de investimento no veículo para não ficar com um preço absurdo. Então hoje tem carros elétricos no mercado a 400 mil reais e tem carros a partir de 150 mil reais. Os fabricantes vão começar a disponibilizar com maior volume no segundo semestre.

E-campus: Qual o gasto de uma adaptação como essa que vocês fizeram?

Jair Urbantez: Ainda é muito prematuro a gente falar em valores de gatos, porque os gastos que nós tivemos foram muito aleatórios, desde a aquisição do veículo até a requisição do reboque. Mas eu diria que é um nicho de mercado que se abre bem brevemente, da mesma forma que nós temos hoje empresas convertedoras de gás natural de veículos. Você pega um veículo e faz uma adaptação; num futuro bem próximo, é possível terem empresas capazes de fazerem essa adaptação de veículo convencional para veículo elétrico.

Esse meu aluno de mestrado é um empresário do ramo de elétrica, de instalações. Então é uma vertente que ele mesmo pode abraçar no futuro, mas aí depende de se ter bons fornecedores de equipamentos que levam a essa conversão. 

Nosso objetivo era mostrar a viabilidade, mas ainda não entramos no mérito da questão de tornar isso uma metodologia de conversão e custos envolvidos. O nosso intuito era ter o carro e ter a forma de produzir a energia para esse carro e não ficar dependente do sistema elétrico, aí é que vem o que a gente montou na universidade. O sistema solar fotovoltaico para carregamento de carro elétrico é um legado que vai ficar para a universidade. Esses equipamentos, a gente conseguiu com doação de empresas, conseguimos uma empresa que doou os módulos fotovoltaicos, uma empresa que doou uma estrutura metálica, porque ela é toda de alumínio, uma estrutura própria para receber cobertura de módulos, uma empresa do inversor, outra empresa das caixas de conexão, daí a gente fez um mutirão entre meus alunos de mestrado, dos dois programas de mestrado que eu oriento, o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PPGEC) e Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Energia (PPGSE), e fizemos vários mutirões lá, desde fazer buraco até a pintura final. Para o preparativo da apresentação final, pintamos o símbolo do carro elétrico, pintamos o piso, então fizemos um sistema realmente de forma que fique bem lúdico; a gente colocou umas ilustrações para quem olhar perceber a ideia do sol produzindo energia para alimentar o carro. A ideia é realmente aproximar essa tecnologia das pessoas e, inicialmente, dentro de quem frequenta a universidade, mas é algo que eu considero irreversível, do ponto de vista de alternativas de produção de energia elétrica, é uma alternativa de mobilidade já vinculando essas duas coisas. Quando falam ‘a substituição da frota de veículos por veículos elétricos’, daí vem a primeira pergunta: ‘da onde vem toda essa energia?,’ e a gente já está mostrando que é possível trabalhar as duas coisas de forma casada. Como as fábricas ainda não disponibilizaram veículos de alcance para a gente fazer aquisição dos veículo, surgiu essa primeira ideia de fazer uma conversão e identificar os problemas envolvidos em relação a isso.

E-campus: Qual a importância de uma Universidade Pública Brasileira desenvolver tal pesquisa?

Jair Urbantez: Eu vejo que nós estamos devolvendo para sociedade conhecimentos que, nós como professores, já tivemos. Como Universidade Pública, nós estamos dando acesso aos nossos alunos, inicialmente, mas que serão multiplicadores de conhecimento, acho que, nesse aspecto, é uma importância bem relevante, pois estamos trazendo esse conhecimento para a população. Inicialmente estamos fazendo o papel de multiplicador dentro das pós-graduações. De forma indireta, o aluno circula, o outro professor vê a tecnologia, a sociedade começa a ter acesso. Eu sou entusiasta da parte de fotovoltaica, vejo como uma opção dentro do ambiente urbano – você consegue produzir energia elétrica, sem área adicional. Dentro do ambiente universitário, nós temos um gerador que é na cobertura do Bloco A, no Escritório Verde e, no caso do estacionamento, é uma vaga que já cria uma área de sombra para o veículo, é uma vaga que já está disponível alí, é uma forma inteligente de energia elétrica, e nós, como Universidade Pública, estamos mostrando para a sociedade que é viável.