Bate-papo com… Ismael Scheffler!

Dia 24 de novembro foi a última apresentação do espetáculo OCO. Foram, ao todo, doze apresentações realizadas no Auditório da UTFPR, ao longo de três semanas, que reuniu quase duas mil pessoas, se configurando como um sucesso de público. Com entrada franca, o espetáculo teve participação intensa de pessoas da comunidade universitária, mas significativamente de pessoas da comunidade externa de todas as idades.

O espetáculo é fruto de um projeto de extensão universitária coordenado por Ismael Scheffler, professor responsável pelo TUT – Teatro da UTFPR. Scheffler, doutor em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina (UFSC); participou do Laboratório de Estudo do Movimento na Escola Internacional de Teatro Jacques Lecoq, em Paris. Atualmente é professor do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN).
Na entrevista, Scheffler fala sobre OCO, as propostas para o ano que vem e arte em universidade pública.

E-campus: Qual foi o público total de OCO?
Scheffler: Tivemos mais de 1.700 espectadores, sendo uma média de 140 pessoas por sessão; chegamos a ter 250 espectadores em uma única sessão. Se compararmos com o público de um jogo de futebol, pode não parecer tanto. Mas considerando que somos um grupo amador de teatro, que nosso auditório não faz parte do circuito cultural (muitas pessoas nem sabem que temos um auditório com esta qualidade) e que nos aproximamos do final do semestre e os alunos estão envolvidos com a vida acadêmica, podemos considerar um sucesso. Se compararmos com a média de público de espetáculos profissionais locais, estamos acima da média.

E-campus: Você tinha expectativas de público quando lançou o espetáculo?
Scheffler: A gente sempre quer muita gente. Fomos um tanto ousados ao propor 12 apresentações com um auditório tão grande, afinal são cerca de 300 assentos embaixo (mais 120 no balcão que não abrirmos ao público). Dividimos as sessões em três semanas esperando que o “boca a boca” tivesse tempo. O mundo tá saturado de atividades, compromissos e espetáculos de todos os tipos. É difícil mobilizar as pessoas e conseguir penetração na mídia. Ficamos felizes com a repercussão.

E-campus: A que você atribui esse sucesso?
Scheffler: Tivemos várias pessoas envolvidas na divulgação e mobilização de pessoas: convidamos vários professores a trazerem turmas, especialmente de cursos com disciplinas afins ao espetáculo (como Design, Letras, Comunicação, Educação Física, Arquitetura, entre outros); investimos em divulgação interna com e-mails, banners e cartazes no pátio e panfletagem impressa; enviamos releases pra impressa externa também. As redes sociais foram importantes, com flyers digitais e vídeos. Neste sentido, devemos agradecimento à professora Simone Landal, do DADIN, que fez assistência de produção, ao Daniel Patire, jornalista e aluno do PPGEL, que fez assistência de comunicação, também a Assessoria de Comunicação do Campus, coordenada pela professora Maurini de Souza, que colaborou muito interna e externamente. Mas acho que foi a indicação de quem assistiu que mobilizou significativamente as pessoas. A repercussão foi para além dos muros da UTFPR.

E-campus: Quanto à peça. Por que investir em um teatro sem falas?
Scheffler: O espetáculo é um projeto de extensão, mas também uma pesquisa prática. O professor Bruno Tucunduva, da educação física da UFPR, e eu trabalhamos juntos há alguns anos aqui na UTFPR. Na época, ele já pesquisava e ensinava técnicas circenses, especialmente acrobáticas. Há anos que desejávamos realizar um projeto de espetáculos juntos. De lá para cá, ele fez doutorado pesquisando pedagogia acrobática e eu, doutorado, pesquisando o teatro do movimento e teatro visual. Temos nos interessado pela potência da expressão do corpo e das imagens há anos. Convidei também a Karina Souza, que tem formação em teatro e dança para participar do projeto como assistente de direção. Ela foi minha orientanda no Curso de Especialização em Artes Híbridas, aqui na UTFPR, pesquisou sobre a dança-teatro de Pina Bausch, tema que continuou no mestrado que defendeu no primeiro semestre deste ano. Atualmente ela é professora no Colégio Estadual do Paraná. Somos três professores-artistas-pesquisadores. Sem a fala, pudemos propor formas menos racionais de estabelecer vínculos com o público, buscando envolvê-lo sensorialmente. Há um processo de empatia distinto entre o espetador e a cena.

E-campus: Você consegue descrever, em sentido geral, como se deu o processo de criação?
Scheffler: Depois que Tucunduva e eu acertamos que trabalharíamos juntos, elaboramos um edital aberto para seleção de elenco a qualquer pessoa pedindo que tivesse algum tipo de formação ou treinamento corporal (circo, teatro, dança, yoga, artes marciais, etc). Apareceram poucos candidatos, todos interessantes, e aceitamos todos; estava num número que desejávamos. Passamos dois meses em treinamento, desde abril, conhecendo cada corpo, suas habilidades, ensinando, propondo inter-relações entre todos. As atrizes têm experiências e formações variadas e era fundamental elas se conhecerem e confiarem umas nas outras e aprimorar e harmonizar as expressões para criar uma produção única. Fui coletando imagens, cenas, movimentos, com fotos, vídeos, na memória mesmo. Chamei isto de células de movimento. Não tinham ainda um sentido dentro da peça, mas um potencial. De maio a setembro, fomos trabalhando nas cenas. Elaborei inicialmente um roteiro simples, com o argumento básico que depois foi sendo preenchido com detalhes, mas a peça não foi criada na sequencia como é apresentada. Foi aos pedaços, encaixando cenas, movendo cenas. Desde o início já estava proposto trabalharmos com teatro de formas animadas (bonecos e máscaras), mas eles entraram mais ao final, então até poucos dias antes da véspera ainda tínhamos alguns buracos a ser preenchidos em todo espetáculo. A trilha sonora original também era algo do projeto desde o início, assim como teríamos profissionais colaborando na peça, no cenário, iluminação e figurino. Levi Brandão foi aluno da Especialização de Cenografia e também da Especialização em Artes Híbridas, e realizou a cenografia. O Paulo Vinícius também foi aluno da Especialização em Cenografia. Ele criou os figurinos. É professor na área na UNESPAR/FAP e na PUCPR. Foi o Paulo que indicou o Wagner Correa para a iluminação. Os três já se conheciam, haviam trabalhado em outros projetos juntos, tinham diálogo entre si. Todos os três têm atuação intensa com a produção cênica em Curitiba, e foi fantástico poder contar com a qualidade e comprometimento do trabalho dos três. Eles tiveram bem a compreensão pedagógica do projeto. Eles realizaram um trabalho complementar entre si e com o trabalho corporal.

E-campus: Como se deu a produção do espetáculo? E a direção?
Scheffler: Este espetáculo marca a retomada do TUT. A última peça, Babel, tinha sido criada em 2013 e reapresentada em 2014. O apoio da atual direção do campus, com o prof. Schiefler e a profa. Finau, foi fundamental. Foi graças a este apoio que pudemos realizar a produção e contar com profissionais nas áreas visuais e musical. O teatro é uma linguagem bastante complexa que articula inúmeras áreas de conhecimentos e técnicas. Isto animou à parceria com Tucunduva. E tudo isso alimentou as atrizes a se dedicarem ainda mais ao processo. Foram realmente muitas horas de trabalho. De maio a julho, eram dois encontros semanais das 18h30 às 22h, sem intervalo. De agosto a outubro, três noites semanais. E as atrizes estudam ou trabalham durante o dia, ou seja, exigiu muito delas. E tem todo o tempo dedicado à produção, confecções, divulgação, logística. Para a realização de um espetáculo como este, há muito tempo dedicado em tarefas burocráticas e operacionais. São diversos os setores da UTFPR que colaboraram para a realização do projeto. O espetáculo OCO é resultado do empenho de muita gente, tendo um orçamento precioso, mas obviamente, muito limitado se comparar com uma produção profissional.

E-campus: Um destaque da peça foi a trilha musical. Como ela foi construída?
Scheffler: Foi bem desafiador, por que quando a Ágatha Pradnik começou a acompanhar os ensaios, a gente ainda não tinha a peça inteira, então não foi como compor a trilha sonora de um filme que você sabe que determinada cena tem 47 segundos e nos 5 segundos finais a música deve ter tal efeito. Ás vezes ela preparava a música, chegava no ensaio e a cena mudou, de 3 minutos agora tinha 5. Ela explorou texturas musicais e músicas que não são tão sincronizadas com os movimentos, pois não queríamos condicionar os movimentos e as atrizes a coreografias dependentes demais da música. No teatro, a gente esta criando até no último momento. Ágatha precisava entender a cena, trazer propostas, experimentarmos, definir a duração, ela precisava definir os instrumentos mais interessantes, escrever a partitura, trabalhar com os músicos, gravar, mixar e a gente ensaiar com a versão definitiva. Não é qualquer compositor que consegue lidar com um processo assim complexo. A música foi fundamental para o processo de criação. Seguimos por vias de mão dupla: alimentamos Ágatha com movimentos e música dela alimentava a cena. Tivemos ensaios com experimentações instrumentais ao vivo com acordeão e violoncelo, coisas que trouxeram muita energia pro ensaio. É algo fantástico ter músicas compostas para um espetáculo, ainda mais com a qualidade que a Ágatha traz.

E-campus: Outro destaque foi o trabalho de corpo das atrizes – qual o segredo para a composição perfeita de força e sensibilidade?
Scheffler: Trabalhamos muito para consciência corporal e na limpeza dos movimentos. Exploramos detalhes mínimos de equilíbrio/desequilíbrio, de respiração, de tensão muscular, de força abdominal. Buscamos composições como se fossem fotografias, pinturas ou esculturas. Perseguimos imagens que tivessem potência de evocar estados humanos, da plenitude da alegria e do afeto, à dor profunda e solidão imensa. Foram muitas horas das atrizes subindo e descendo uma nas outras, de caminhadas e mais caminhadas até acharmos as mais interessantes. Gastamos tempo, por vezes, para achar a melhor posição para mostrar um movimento ao público, se de frente, de lado ou por trás. Detalhes mínimos da posição e tensão de uma mão. São anos de estudos do Bruno, da Karina e meus, experimentando, testando, observando o trabalho dos outros. E muitos anos de preparação das atrizes anterior à peça. A Bruna, por exemplo, fez oito anos de ginástica artística. Algumas atrizes treinam quase todos os dias acrobacias há alguns anos.

E-campus: Você tem dedicado os últimos anos nos estudos sobre cenografia. Em que medida os bonecos (as criaturas), a iluminação e o cenário se relacionam a esses estudos?
Scheffler: Temos usado o termo design cênico ou desenho da cena para referir aos elementos visuais do espetáculo. Atualmente, divido meu trabalho na UTFPR entre o Departamento Acadêmico de Desenho Industrial, com disciplinas optativas na área, e o TUT. Coordeno também o curso de Especialização em Cenografia, o de Especialização em Artes Híbridas e dou aula na Especialização em Narrativas Visuais, sempre lidando com estas temáticas visuais. Cada vez mais, a imagem tem ganhado importância dentro do teatro. O teatro de formas animadas também tem expandido criando-se coisas incríveis na atualidade. Ao mesmo tempo, ainda temos uma carência grande de pesquisas e produções bibliográficas nestas áreas na academia e é significativamente isto que tenho pesquisado e ensinado, na teoria e na prática. Foi muito desafiador pensar sobre os bonecos, não apenas na aparência – pense que vemos no cinema criaturas monstruosas impressionantes feitas com tecnologias incríveis; mas também nas técnicas, materiais e mecanismos, afinal cada boneco de OCO tem especificidades e, embora aproveitemos conhecimentos, resolver um boneco com sete metros de envergadura ou um sistema como do primeiro boneco com a língua, foi desafiador. A Naiara Bastos, que é bonequeira com formação na área, ajudou numa consultoria inicial fundamental. Também a assistência da profa. Simone Landal, na confecção de alguns bonecos. Gostei muito de ter assumido o desafio da construção dos bonecos. Não consegui realizar muito treinamento específico das atrizes na manipulação, ficou mais para o final, um tanto corrido. Mas foi bem impressionante ver que o trabalho técnico corporal ao longo do ano foi aplicado diretamente para dar vida aos corpos dos bonecos; esta preparação corporal trouxe uma consciência significativa sobre o movimento e a respiração das criaturas. A Raquel manipulava dois e se saiu muito bem, sendo a primeira vez que ela trabalhou com isto. A Natália já trabalha há alguns anos com malabares, então foi muito interessante esta mistura de animação e malabares. Os bonecos ocupam parte fundamental da peça. Sem o antagonismo deles não há espetáculo. E pensar em bonecos que provoquem asco, medo e raiva em adultos? Desafio, né?

E-campus: Houve algum problema sério no percurso? Alguma surpresa boa?
Scheffler: Começamos com um grupo de sete pessoas. Em agosto, em um momento ainda possível sem comprometer o processo de criação, o grupo ficou em seis atrizes. Estas seis estavam já alinhadas, mas desenvolveram ainda um sintonia maior no trabalho corporal, tendo um comprometimento com o projeto muito intenso. Quem assistiu ao espetáculo, percebeu isto. Tivemos um processo muito tranquilo, em termos gerais. Mas às vésperas da estreia um das atrizes, a Rebecca, machucou o joelho em outra atividade. Inicialmente, ela acreditava que daria para continuar no espetáculo, pegando mais leve. Mas logo veio o diagnóstico de que precisaria de cirurgia de emergência. Faltando três dias para a estreia tivemos que adaptar algumas cenas, mudar algumas acrobacias. Mas foi algo tranquilo. Ela estava ensaiando dois papéis: o principal, que a Bruna também estava ensaiando, e outro menor. Elas se revezariam nas apresentações entre um papel e outro. A personagem principal fica cerca de 45 minutos em cena direto, tendo várias cenas de equilíbrio e acrobacia. Preparamos duas atrizes no papel principal, pois, caso uma se machucasse, teríamos outra já preparada. Foi uma decisão inicial sábia. Por fim, Bruna teve que assumir todas as apresentações. Ficou pesado para ela, especialmente nos dias em que tínhamos sessão de tarde e de noite. Mas foi fantástica. Rebecca ficou inconsolável com a lesão, ela havia se dedicado muito nos ensaios. O acidente foi bobo, mas trouxe consequências. Ela já fez a cirurgia e está se recuperando bem. Agora, sobre surpresa boa? Foi ver a repercussão da peça, ouvir comentários sinceros e intensos, perceber que conseguimos nos conectar com as pessoas.

E-campus: Várias pessoas apresentaram entendimentos bem diferentes sobre a história. Alguns viram como a história da humanidade, outros como suas histórias individuais, outros como o universo do trabalho na modernidade, outros ainda viram uma discussão de gêneros e, sem dúvida, uma pauta política atual. O espectador Ismael entendeu como?
Scheffler: Um dos desafios que eu tinha era de propor um espetáculo cujas imagens tivessem abertura para leituras amplas. Como se pode propor uma narrativa visual que possibilite entendimentos variados de forma a ter coerência em todas elas? A poesia é algo fantástico. Nosso espetáculo é poesia visual, corporal e sonora. Para entender poesia, não se pode querer “entender” tudo. É preciso sentir e aceitar que coisas não compreensíveis possam ser percebidas. Sem a palavra que define tantas coisas, a intuição pode encontrar mais espaço. Podemos não entender, mas podemos saber pela empatia. O espetáculo trata também de empatia, na narrativa e na experiência. Nossos repertórios pessoais são a bagagem que usamos para dar sentido às imagens. Em um sonho, nem sempre sei explicar tudo, mas posso saber que tem um sentido. Não somos apenas racionalidade e consciência, somos também profundidade, a psicologia diz isso. O uso de máscara na peça colabora para este aspecto: não podemos ter tanta certeza do que os rostos “querem dizer”, então olhamos para os corpos e as relações entre as personagens. Elas se cuidam, elas se repelem. Elas se protegem, elas sentem a violência. Sou eu que sou cuidado e quem cuida, sou eu que afasto e me afasto, sou eu quem violenta e é violentado. A humanidade se constrói nas relações humanas. Para mim é difícil falar sobre o espetáculo, por que tenho medo de “contar uma história” e as pessoas querem ler a “minha história de autor”. Ouvi várias coisas interessantes sobre a peça, leituras que nunca me passaram pela cabeça, mas que fazem um sentido tão completo e interessante que fico feliz por perceber que a ideia de ter imagens abertas (mas não vazias) deu certo. Há uma autonomia do espectador. Há uma experiência pessoal. O espectador se ouviu a si, entrou em contato consigo. Mas, claro, para isto, eu encenador preciso trabalhar com um lastro. Desde março tenho me perguntado: o que é possível dizer num mundo como o nosso hoje? Num país em que a violência tem se naturalizado, onde a empatia tem diminuído e o próprio sentido de humanidade se dissolvido? Há tanta angústia, medo, ódio, tanta insegurança, imprevisibilidade sobre os rumos do país e de cada um… OCO é uma tentativa poética de lidar com nosso momento. Talvez por isso algumas pessoas tenham vindo assistir duas, três ou mais vezes a peça. Muitas pessoas saíram do espetáculo e não sabiam explicar o que aconteceu com elas. É muito sério isto. É muito forte. Algo aconteceu. A arte pode nos mover internamente e externamente. A arte é um caminho de resgatarmos a empatia, nossa pessoalidade e nossa humanidade.

E-campus: Temos mais ano que vem? Ideias? Propostas?
Scheffler: Queremos voltar com nova temporada em 2020. O combinado com as atrizes era para este ano, mas todas estão muito motivadas para continuar. Ao longo das apresentações, o trabalho vai crescendo, se aperfeiçoando. A Rebecca está empolgada, pois logo seu joelho estará melhor, então, com a entrada dela no palco, pra todas será algo também novo. Temos outros três projetos, além de reapresentar OCO. Faremos uma exposição fotográfica e de desenhos da peça. Faremos também um documentário do material fílmico registrado desde o começo do processo nos ensaios, com depoimentos. Também é projeto a publicação de um livro que relate e reflita sobre a peça, seu processo de criação e resultado. São raras as produções bibliográficas com esta abordagem. Também iniciaremos uma nova produção teatral, com novo grupo, explorando a linguagem visual e formas animadas, provavelmente ousando no teatro de sombras. Ainda estamos conversando para ver como a parceria de pesquisa de acrobacia e teatro (Tucunduva UFPR-Scheffler UTFPR) continuará.

E-campus: Qual a importância de se produzir arte em uma universidade pública?
Scheffler: Acho que comentei algo acima, mas vale retomar a respeito da arte, que ela traz uma valorização da sensibilidade, da intuição, da empatia, da humanidade que não se pode esquecer. A vida não é apenas produzir e consumir. A arte nos lembra isto e nos dá isto. Somos mais que nossas obrigações. Nossos alunos vivem cada vez mais imersos em compromissos acadêmicos e profissionais. Ter a arte próxima, dentro da universidade, dá margem a problematizarmos isto. Várias pesquisas mostram como tem crescido os casos de depressão, frustração e ansiedade entre estudantes universitários e professores. Não há vida sem a arte, sem a expressão e discussão de nossa existência, das alegrias e conquistas ou das frustrações e medos. Como universidade pública, também entendo que temos o compromisso de estabelecer relações com a sociedade, de abrir nossas portas a qualquer cidadão, de dar oportunidades variadas. Em uma das apresentações de tarde, tivemos a presença de seis turmas do Colégio Estadual Dr. Xavier da Silva (nosso vizinho), com cerca de 30 alunos cada. Dos alunos de 11 a 14 anos, perguntei ao final quem estava vindo pela primeira vez ao teatro e cerca de 40 ou 50 levantaram a mão. Veja que oportunidade e responsabilidade. Imagina que em um domingo à noite tivemos 200 pessoas que vieram à UTFPR apenas para fruir da arte, sem obrigações, vieram “viver a universidade’. Você via que haviam professores e alunos que vieram à universidade mas não para estudar ou trabalhar, mas muitas outras pessoas que anteriormente sequer sabiam que dentro da UTFPR existia arte e que isto também pertence a elas. Por meio do TUT, buscamos criar permeabilidade interna e externa. Por fim, é preciso lembrar que arte também é conhecimento, também envolve ciência e tecnologia, e deve estar dentro da universidade. Projetos de extensão com esta complexidade como foi o espetáculo OCO, dão oportunidade para que diversos alunos, de diferentes cursos e graduação possam encontrar um espaço de aprendizado importante, aplicando conhecimentos vistos em aulas, desenvolvendo projetos interdisciplinares coletivos, desenvolvendo responsabilidade ética de trabalho em grupo e cooperação. Todas as áreas de conhecimento são aplicadas no teatro, com ênfases diferentes. É preciso destacar a importância de alunos voluntários no processo de OCO, de funções mais pontuais como colaborar na recepção, assim como em parcerias contínuas fundamentais a cada noite de apresentação. Tivemos tanto alunos nossos, quanto da UNESPAR e UFPR neste processo. Por isto, pensar a arte no ensino, na pesquisa e na extensão é fundamental. OCO tem dado oportunidade para tudo isto.

Ficha técnica:
Concepção, direção, dramaturgia e produção: Ismael Scheffler
Assistência de direção: Karina Souza
Treinamento artístico de acrobacias: Bruno Tucunduva (UFPR)
Assistência de produção: Simone Landal
Elenco: Bruna Martins, Cecília Dambros, Monique Rau, Natália Winter, Rebecca Stauffer e Raquel
Lorentz
Cenografia: Levi Brandão
Figurino: Paulo Vinícius
Costureira: Nair Brandt
Desenho de luz: Wagner Correa
Operação de luz: Nicolas Caus e Letícia Decker
Trilha sonora original e edição de som: Ágatha Pradnik
Instrumentistas: acordeon: Ágatha Pradnik; flauta: Denusa Castellain; violoncelo: Maria Luiza Sprogis; fagote: Juliano Pontes; oboé: Carina Cardoso de Araújo; pratos, udu, xilofone: Luís Fernando Diogo
Operação de som: Ayesla Fabian e Gustavo Bittencourt
Formas animadas: Ismael Scheffler
Assistência de confecção de formas animadas: Simone Landal
Consultoria de formas animadas: Naiara Bastos
Preparação corporal: Ismael Scheffler, Bruno Tucunduva e Karina de Souza
Assessoria de comunicação: Maurini de Souza (ASCOM) e Daniel Patire (PPGEL)
Fotografia: Daniel Patire
Teasers: Ismael Scheffler, Aline Scheffler e Mazi Moreto
Design gráfico: Vinícius Baptista e Jenifer Rutzen
Ilustração do cartaz: José Marconi Bezerra de Souza